“Deve-se acreditar em Cuba”

Texto: Ana Ornelas | Fotos: Arquivo Pessoal

Levar medicamentos na bagagem tornou-se um hábito entre brasileiros que viajam para Cuba. Quando embarcou para a ilha em março deste ano, o professor sênior e colaborador voluntário do Centro de Línguas (CEL) da Unicamp, Paulo Oliveira, fez o mesmo. O que seria uma viagem para celebrar seus 70 anos acabou se transformando em uma experiência de solidariedade e em um novo olhar sobre o país. 

O cenário que Paulo encontrou era de um país que enfrenta há anos uma crise energética, a escassez de produtos básicos e a dificuldade de abastecimento. “A visita que era para ser particular acabou virando uma visita de solidariedade. Como todo mundo que vai para Cuba atualmente saindo do Brasil, eu levei uma mala cheia de remédios. Paracetamol, seringas e medicamentos básicos. Todo mundo que vai leva alguma coisa porque sabe que lá esses produtos fazem falta”, contou o professor. 

Apesar de já conhecer essa realidade do país, a experiência despertou um questionamento que o acompanhou durante toda a sua permanência na ilha: como um país reconhecido pela qualidade da formação de seus profissionais de saúde enfrenta dificuldades para oferecer medicamentos básicos à população? “Como é que um país que foi o primeiro a controlar a Covid 19 não tem paracetamol? Conversei com um médico que me explicou que o problema não é conhecimento nem capacidade de produzir. O problema é que faltam insumos. Eles vêm principalmente da Índia, mas muitos fornecedores deixam de vender para Cuba por medo das sanções dos Estados Unidos”, explicou Paulo.

Havana iluminada à noite, no início de abril, com o restante do combustível que tinha chegado da Rússia, interrompendo a intensidade dos apagões causados pelo bloqueio energético.

Muito além da escassez
Durante os dois meses que ficou em Cuba, Paulo vivenciou na prática as consequências da crise. Sua rotina era marcada por apagões, dificuldades de transporte e escassez de produtos essenciais. “Como não tinha transporte, eu andava muito a pé. Faltava diesel, faltava energia, faltava água. Eu acabei lendo muito e aprendendo sobre a história de Cuba justamente porque a rotina era atravessada por essas dificuldades. As pessoas tinham coisas mais importantes para resolver, que era sobreviver, encontrar comida, conseguir combustível, organizar a vida”, contou.

A convivência e troca de experiências mudou a percepção do professor sobre o país. Mesmo com as dificuldades econômicas, Paulo diz que encontrou uma população muito notável por sua hospitalidade, por seu diálogo e pela capacidade de enfrentar adversidades sem perder a dignidade. “Cuba foi a experiência internacional mais rica que eu já tive. Já morei nos Estados Unidos, vivi quase oito anos na Alemanha, passei temporadas na Itália, em Portugal, na Irlanda do Norte e na Áustria. Nenhuma experiência internacional foi tão rica quanto Cuba. Não foi por causa das paisagens ou dos monumentos. Foi porque é um país muito diferente. O diferencial está nas relações humanas. As pessoas vivem uma situação extremamente difícil e, mesmo assim, têm uma dignidade espantosa.”

Carro elétrico com placa solar no teto, síntese da inventividade cubana na transição da matriz energética do país.

Para Paulo, um grande destaque ao longo de sua viagem foi a habilidade de conversa dos cubanos. Médicos, professores, motoristas, comerciantes e moradores transformaram encontros casuais em longas conversas sobre política, cultura e economia. “Em nenhum outro país onde passei tanto tempo conversei tanto com a população local quanto em Cuba. Eles gostam de conversar. Se você der espaço, eles contam tudo. Falam da vida, discutem política, discutem cultura, discutem história. Todo mundo tem opinião.”

Outra característica que chamou sua atenção foi a presença da educação no cotidiano. Segundo ele, escolas fazem parte da paisagem urbana e ajudam a explicar aspectos da vida social cubana que, muitas vezes, passam despercebidos por quem observa o país apenas à distância. “Se você me perguntar do que eu mais gostei em Cuba, eu respondo sem pensar: ver crianças indo para a escola. Todo lugar que você passa tem uma escola. Você vê crianças caminhando para estudar. Cuba valoriza profundamente educação, cultura e artes. Você conversa com qualquer pessoa e percebe que ela tem opinião, repertório, lê e acompanha as discussões.”

Monumento a Don Quixote no bairro de Vedado, em Havana (o “Quixote” foi o primeiro livro impresso em Cuba após a revolução: simboliza a valorização da literatura, da arte e da cultura em geral no páis).

Entendendo Cuba
Durante os períodos em que precisou permanecer em casa por causa dos apagões e da dificuldade de locomoção, Paulo aproveitou para aprofundar seus estudos sobre a história cubana. Para ele, compreender o contexto histórico do país também ajuda a explicar aspectos observados no cotidiano, como a valorização da educação, da cultura e da saúde. “Eu aprendi que o programa da Revolução tinha cinco pontos muito claros: acabar com a escravidão, promover a igualdade de gênero, acabar com o analfabetismo, fazer a reforma agrária e combater a fome. Quando você entende isso, entende também por que educação, cultura e artes são tão valorizadas em Cuba”, explicou.

Para Paulo, o contexto atual de Cuba não pode ser compreendido sem considerar o impacto do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. Na avaliação dele, as consequências vão muito além das relações diplomáticas e atingem diretamente a rotina da população. “Todo mundo sabe que existe um bloqueio, mas pouca gente entende como ele funciona. Não é uma coisa simbólica. Se eu fizer negócio com Cuba, posso ser sancionado. Empresas deixam de vender, bancos bloqueiam operações e fornecedores deixam de negociar. É isso que interfere diretamente na vida das pessoas. O bloqueio não aparece apenas nas relações diplomáticas; ele aparece quando falta combustível, quando falta remédio e quando um banco decide que não pode fazer uma transferência.”

Painéis solares novos em cima de edifício na avenida Linea, Havana, por onde transitam diferentes meios de transporte.

Ao fim da viagem, Paulo acredita que compreender Cuba exige abandonar interpretações simplificadas e observar a realidade vivida pela população. “Eu acho que a comunidade da Unicamp, e a sociedade de maneira geral, precisa entender que não é preciso ser de esquerda para ser solidário com Cuba. Solidariedade não é uma posição partidária. Basta reconhecer que existe um povo vivendo uma situação muito difícil. Cuba tem muito a oferecer em ciência, cultura, educação e arte.”

Ao retornar ao Brasil, Paulo trouxe poucas lembranças materiais da viagem. Entre elas, um livro da jornalista cubana Magda Resik, que acabou inspirando o título desta reportagem. Para ele, a obra sintetiza o principal aprendizado daqueles dois meses na ilha. “Se eu fosse escrever alguma coisa sobre essa experiência, daria exatamente esse título: Deve-se acreditar em Cuba. Eu voltei convencido de que Cuba tem muito a ensinar para quem está disposto a olhar além dos estereótipos.”

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