Texto: Ana Ornelas | Fotos: Arquivo Pessoal
Em 1984, Sérgio Resende Carvalho era recém-formado em Medicina quando embarcou em uma brigada internacionalista para Nicarágua, em solidariedade à experiência da Revolução Sandinista. Foi ali, trabalhando ao lado de médicos, enfermeiros e outros profissionais cubanos, que começou uma relação com Cuba que continuaria pelas quatro décadas seguintes. Impressionado com a capacidade técnica dos profissionais e pela solidariedade demonstrada por eles, Sérgio passou a olhar para o país com outros olhos.
Ainda nos anos 80, morou em Cuba e conheceu um pouco mais do país. Sérgio descobriu que mesmo não sendo um país rico, havia muita dignidade, com saúde e educação de primeiro mundo. “Lembro que, na Ilha da Juventude, havia milhares de jovens africanos sendo formados para depois ajudar seus países, e os cubanos os recebiam sem cobrar nada. Era o que chamavam de internacionalismo: uma maneira de entender que cuidar dos povos de outros países era cuidar da humanidade”, lembrou.
Anos depois, em 2004, Sérgio tornou-se professor da Unicamp, no Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). A relação com Cuba ganhou então também uma dimensão acadêmica. Em dezembro de 2016, ele retornou ao país ao lado do médico Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde e, à época, doutorando em Saúde Coletiva na Unicamp. Durante a viagem, os dois realizaram visitas a instituições e conheceram de perto a organização do sistema cubano de saúde.

Naquele período, Cuba era reconhecida internacionalmente por um modelo de saúde fortemente baseado na atenção primária e no acesso universal, embora já enfrentasse décadas de restrições econômicas provocadas pelo embargo norte-americano. A aproximação resultou na construção de um convênio entre a Unicamp e a Universidade de Ciências Médicas de Havana. Pela Unicamp, a articulação passou a ser coordenada por Sérgio e pelo professor Gustavo Tenório, também do Departamento de Saúde Coletiva. “Uma das dificuldades é que Cuba não tem dinheiro. Eles têm uma grande capacidade de organização do sistema de saúde, de ensino, de produção científica e são muito avançados também na biotecnologia. Porém, quando estabelecemos essas relações, eles não têm recursos para enviar pessoas para cá. Isso sempre foi uma dificuldade, além dos problemas de comunicação, agora absolutamente agravados pelo bloqueio.”
Desde a formalização da parceria, a aproximação tem possibilitado diferentes experiências de intercâmbio acadêmico. Residentes de Medicina de Família e Comunidade da Unicamp já realizaram estágios em Cuba e, nos próximos meses, dois estudantes da graduação em Medicina devem passar um mês no país. A cooperação também envolve projetos de pesquisa e a circulação de docentes e pesquisadores entre instituições brasileiras e cubanas.
A viagem de 2016 também permitiu a Sérgio conhecer uma Cuba distante dos espaços institucionais. Depois dos compromissos acadêmicos, o professor percorreu de bicicleta regiões montanhosas do país durante 23 dias, passando inclusive pela Sierra Maestra e se hospedando ou acampando próximo às casas de moradores das áreas rurais. “Foi uma experiência extraordinária. Conheci um povo absolutamente maravilhoso e generoso. Era uma Cuba que não passava pela discussão sobre ser comunista ou capitalista. Era montar numa bicicleta, chegar a um lugar, montar a barraca, dividir a comida, conversar e fazer amizade. Acho que essa dimensão é pouco discutida.”

Em abril deste ano, Sérgio retornou ao país no âmbito do projeto internacional “Políticas e Sujeitos LGBTI+ na América Latina e Caribe”, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e voltado ao estudo das condições de vida da população LGBTQIA+. Desta vez, encontrou um cenário significativamente mais difícil. Para ele, voltar ao país também significava acompanhar de perto essas transformações e poder relatar o que viu. “Estar em Cuba neste momento permite ser testemunha, contar o que está acontecendo e estimular outras pessoas a conhecerem o país. Você vê lixo nas ruas porque faltam caminhões, vê um sistema sanitário que foi muito bom envelhecendo, tubulações se deteriorando, períodos de dez ou doze horas sem energia. Mas muita coisa continua funcionando. Mesmo neste momento de muito sofrimento, eles buscam privilegiar quem mais precisa, como crianças e idosos”, contou.
Um dos exemplos encontrados pelo professor foi na Faculdade de Medicina Calixto García, a mais antiga de Cuba, localizada no centro de Havana. Ao chegar à instituição em uma sexta-feira, Sérgio não encontrou professores ou estudantes circulando pelos corredores. Segundo o relato que recebeu no local, a falta de combustível levou à suspensão das atividades presenciais naquele dia da semana.

A instituição também precisou adaptar a formação dos estudantes. Alguns deles viviam a cerca de 20 quilômetros da faculdade e enfrentavam dificuldades para chegar ao campus. Como alternativa, parte das atividades foi redirecionada para serviços de atenção primária e para outro hospital mais próximo dos alunos. Para Sérgio, a reorganização exemplifica a forma como o sistema busca responder às limitações impostas pelo cotidiano. “É como se dissessem aos estudantes: agora vocês vão cuidar de quem está pior, dos idosos, das pessoas que mais precisam. Vocês vão aprender medicina no sofrimento do povo.”
Entretanto, ao falar sobre o país, Sérgio faz questão de afastar uma visão romantizada. Reconhece a existência de problemas de gestão e desafios próprios da sociedade cubana, ao mesmo tempo em que atribui ao bloqueio econômico ao agravamento das condições atuais. “Acho que o país tem seus próprios problemas de gestão e seus desafios internos. Mas o bloqueio tem um peso enorme na situação que vivem hoje. Ainda assim, continuo achando que é um país extraordinariamente interessante. Talvez o mais bonito de Cuba seja o próprio povo.”
Mesmo diante das dificuldades que encontrou na viagem mais recente, Sérgio destaca a permanência da produção artística e cultural e dos esforços nas áreas de saúde e educação. Para ele, são estruturas e conhecimentos construídos ao longo de décadas que continuam presentes mesmo em um cenário de escassez. “Mesmo vivendo um momento tão difícil, eles têm memória, têm prática, sabem fazer. Acho que temos muito a contribuir com Cuba, mas o país segue sendo extraordinariamente interessante para aprendermos em vários sentidos. A vida continua. Cuba está viva.”