Projeto Sábio Jardim

O Projeto “Sábio Jardim’ Jardim-Escola de Saberes Populares, Científicos e Ancestrais”, foi implantado no Espaço Cultural Casa do Lago a partir da criação de uma oficina de “Cultivo de Plantas Medicinais, Conhecimentos Ancestrais e Científicos” oferecida aos alunos da comunidade interna e externa da Universidade Estadual de Campinas. A oficina teve início em 08 de abril de 2022, mês do aniversário de 20 anos da Casa do Lago, e a primeira turma concluiu o curso em 24 de junho do mesmo ano. O objetivo foi proporcionar aos alunos a troca de conhecimentos e experiências sobre a história dos fitoterápicos e o resgate dos saberes populares, ancestrais e científicos sobre o cultivo e utilização das plantas medicinais, além da pintura em grafismos indígenas nas paredes dos canteiros.

Um pouco de história…

O Prof. Dr. João Ernesto de Carvalho, da Faculdade Ciências Farmacêuticas da Unicamp, é o autor do projeto “Plantas Medicinais: Usos, Produção de Mudas e Implantação de Jardim Medicinal” e o primeiro curso e jardim medicinal foram criados, no 2º semestre de 2019, para atender os alunos da média e terceira idade do Programa UniversIDADE, da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura, e contou com a colaboração da Prof.ª Dr.ª Mariana Nagle dos Reis, engenheira agrícola, cursando o programa de pós-graduação da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp. Com a pandemia, este jardim se perdeu por causa do fechamento dos trabalhos presenciais na Universidade e retomado posteriormente após pandemia.

A então Diretoria de Cultura/PROEEC estabeleceu no seu planejamento quatro eixos de atuação: estéticas periféricas, arte, ciência e tecnologia e os saberes ancestrais. A partir dessas diretrizes, a Casa do Lago intensificou suas ações no eixo da ancestralidade dos povos indígenas, no cultivo e uso das plantas medicinais e na pintura dos canteiros. No decorrer do ano, realizou-se diversos tipos de atividades com os indígenas, desde danças (Toré), oficinas de artesanatos, pinturas corporais, feiras expositivas e gastronomia.

A Coordenadora da Casa do Lago, Silvana Di Blásio, viabilizou a implantação do Jardim Medicinal junto aos órgãos superiores. A organização da oficina coube a Rosangela Martinhago, idealizadora do projeto desde o início. Já a parte artística, pintura e programação cultural coube à produtora cultural Flávia de Moraes Salles Costa Cavalcanti.

Na primeira etapa da oficina foi criado o “Berçário de Mudas”, onde os alunos tiveram a oportunidade de aprender e produzir diversas mudas de espécies medicinais. A fim de atingir tal objetivo, foram selecionadas cerca de 20 espécies de mudas que foram plantadas no Jardim Medicinal da Casa do Lago, tais como: alecrim (Rosmarinus officinalis L.), arruda (Ruta graveolens L.), babosa (Aloe vera L.) Burm. f., boldo (Vernonanthura condensata (Baker) H. Rob), camomila (Chamomila Recutita (L.) Rauschert), capim santo (Cymbopogon citratus (DC.) Stapf), cavalinha (Equisetum giganteum L.), açafrão da terra (Curcuma longa L), falsa melissa (Lippia alba), erva baleeira (Varronia curassavica Jacq), erva doce brasileira (Foeniculum vulgare Mill), espinheira santa (Maytenus ilicifolia), gengibre (Zingiber officinale Roscoe), guaco (Mikania glomerata Spreng), hortelã (Mentha spicata L.), malva cheirosa (Plectranthus amboinicus (Lour.) Spreng), lavanda (Lavandula angustifolia), losna (Artemisia absinthium L.), manjericão (Ocimum basilicum L.), poejo (Mentha pulegium L.), sálvia (Salvia officinalis L.) e moringa (Moringa oleífera). Os propágulos de mudas, estacas e sementes foram trazidos pelos alunos e professores do curso e foram plantados em embalagens recicladas e, posteriormente, replantadas nos canteiros suspensos e na mandala infantil.

Para atingir os objetivos do curso, foi feito um projeto de canteiros suspensos para a implantação do jardim medicinal da Casa do Lago. Os projetos paisagístico e de irrigação foram elaborados por Mariana Nagle dos Reis e compreenderam três canteiros suspensos com blocos de concreto e uma mandala infantil, que foram construídos com materiais reaproveitados da Universidade.

Tal projeto recebeu apoio da Prefeitura Universitária, através da Divisão de Manutenção e da Divisão de Meio Ambiente, seja na construção dos canteiros, na disponibilização de mão de obra ou no substrato para o preenchimento dos canteiros com resíduos de poda do próprio campus.
A fim de harmonizar os canteiros suspensos construídos para a realização da oficina com o design da Casa do Lago, a produtora cultural Flávia de Moraes Salles Costa Cavalcanti convidou a artista plástica Sílvia Matos, do Atelier Criatividade, para coordenar os membros das etnias indígenas que fizeram parte da criação das pinturas dos canteiros, respeitando a liberdade de expressão e criação de cada povo. Os desenhos foram feitos em grafismo, muito utilizado nas pinturas corporais, nos cultos e nos artesanatos indígenas.

Os representantes indígenas que fizeram a arte nos canteiros são das seguintes etnias: Kuikuro, Dessana e Kariri-Xocó Bokuyá. Dois deles, Jaraki (Kuikuro), e John Abé (Dessana), são alunos de graduação da Universidade, ingressantes pelo vestibular indígena. Já os indígenas Wayttiran Cruz e Kawytononé da etnia Kariri-Xocó Bokuya não são alunos da Unicamp.

Os indígenas foram apresentados à Casa do Lago por Zilda Oliveira de Farias (DIDA- Kariri-Xocó), pedagoga e professora de Educação Infantil da DEDIC e membro do Grupo Caiapi (DeDH/Unicamp).

Significado das pinturas indígenas

Os representantes de cada etnia indígena adotaram um canteiro suspenso e pintaram as suas paredes de forma criativa e espontânea registrando a vivência, arte e cultura dos diferentes povos indígenas das regiões norte, nordeste e centro oeste do Brasil.

O indígena Yanapa (Jaraki) – etnia Kuikuro, que fica na região nordeste do estado do Mato Grosso (território indígena do Xingu), apresenta a relevância da sua arte para o seu povo: “a pintura do povo Kuikuro é muito importante, é nosso símbolo, é nossa identidade. A pintura não foi inventada, veio dos nossos antepassados, do nosso criador. É usada nas festas, artesanatos, pulseiras.”

O indígena John Abé, etnia Dessana, que é da região do Amazonas, desenhou numa das paredes do canteiro um banco de madeira e dois pilares centrais representando a Maloca. A Maloca é o local sagrado utilizado por vários povos indígenas da sua região, como fala a seguir:

“O grafismo representa a maioria dos povos indígenas do Alto do Rio Negro/Amazonas. A Maloca tem grande representatividade para a maioria dos povos indígenas. É a casa dos saberes, com dois pilares centrais e o “Banco” que os mais velhos, os sábios, sentam para transmitir ensinamentos para os mais novos. Na cosmologia do nosso ponto de vista de transformação do mundo, o banco era de quartzo e hoje é feito de madeira e tem grande representatividade para toda a Maloca. Apesar de serem todos indígenas, têm culturas diferentes.”

Nas demais paredes do canteiro, John Abé registrou a arte dos diversos povos indígenas da sua região, que são utilizados nos instrumentos de artesanatos, cestarias e esteiras. O indígena Wayttiran, etnia Kariri-Xocó Bokuya, do estado de Alagoas, pintou nas paredes do canteiro o mesmo desenho que eles usam na face e no próprio corpo, como fala a seguir:

“O significado da pintura sagrada das mulheres da nossa etnia. A pintura significa para a gente nosso corpo seguro. Para a gente se denominar quem somos: índio. A pintura é usada nos rostos das mulheres e dos homens para participar de canto e danças, sendo alegre ou triste, cada pintura tem seu momento de ser cantada.”

O Jardim Medicinal da Casa Lago é muito apreciado pela comunidade e tem sido um espaço para visitação e sensibilização para alunos de outros cursos da Unicamp. O berçário de mudas também tem atendido os alunos de extensão do Programa UniversIDADE (da terceira idade) com aulas práticas, com realização de plantio e produção de mudas. As mudas ainda foram utilizadas em outras unidades, como no Jardim Medicinal da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp.

Desde 2023 a Oficina/Curso recebe o apoio financeiro do Grupo Gestor de Benefícios Sociais (GGBS) Unicamp. A Profa. Mariana Nagle dos Reis ampliou a temática das Oficinas para uma nova edição: “Práticas Integrativas Complementares incorporadas ao Sistema Único de Saúde tendo como referência o PNPIC (Programa Nacional de Práticas Integrativas Complementares), utilizando plantas do Jardim Medicinal da Casa do Lago.