Texto: Ana Ornelas | Fotos: Arquivo Coletivo Oceram
“Um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio. Ao contrário: ele passa a ser ele mesmo e outros rios, ele se fortalece. Quando a gente confluência, a gente não deixa de ser a gente, a gente passa a ser a gente e outra gente.” A reflexão do filósofo quilombola Nego Bispo inspira o projeto “Confluências”, contemplado na 16ª edição do Programa Aluno-Artista da Unicamp. A segunda oficina gratuita e aberta ao público será realizada no dia 12 de junho, das 14h às 17h, no CIS-Guanabara, espaço cultural vinculado à Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC).
Desenvolvido pelo Coletivo Oceram, composto por Bianca Toledo, Graciella Navarros, Luís Guilherme Neves e Paula Luzia Rodrigues, estudantes de graduação em Artes Visuais, o projeto promove oficinas gratuitas de modelagem em argila. A proposta utiliza o fazer artístico da argila como prática de encontro, escuta e criação coletiva, aproximando pessoas, memórias e territórios a partir da relação simbólica entre a água, a terra e os rios que atravessam a cidade.
Segundo Paula, a proposta busca ampliar as possibilidades de relação com a argila para além da produção de objetos utilitários. “A gente viu o quanto dá para explorar diversas possibilidades na argila. Muitas vezes ela fica presa nesse lugar do utilitário, mas a proposta do coletivo é justamente explorar outras formas de expressão”, contou.

A escolha da argila como material central das oficinas está relacionada à trajetória do próprio coletivo, que se formou a partir de experiências compartilhadas durante a graduação. Ao longo dos últimos anos, os estudantes realizaram oficinas em diferentes contextos, como ações voltadas à formação de professores da rede municipal de ensino, atividades extensionistas na universidade e iniciativas em espaços culturais da cidade.
Para o coletivo, a materialidade também favorece processos de experimentação e criação coletiva. Bianca destaca que a argila estabelece conexões com diferentes culturas e modos de vida, aproximando os participantes de práticas ancestrais e dos elementos da natureza. “Acho que existe um potencial simbólico muito forte na argila. Ela carrega uma conexão com culturas do mundo inteiro, em diferentes tempos e contextos. É uma materialidade que aproxima as pessoas de práticas ancestrais e também dos elementos da natureza. É terra, é água”, explicou.
Mais do que ensinar uma técnica de modelagem, as oficinas propõem momentos de encontro e compartilhamento. A metodologia desenvolvida pelo coletivo é estruturada a partir de uma sensibilização inicial, seguida pela prática artística e por uma roda de conversa ao final da atividade. “É nesse momento que as experiências se assentam. As pessoas acabam se conectando umas às outras por meio das histórias que surgem durante o processo”, comentou Paula.
A etapa de sensibilização tem papel fundamental na proposta do projeto, estimulando os participantes a refletirem sobre suas próprias trajetórias antes do contato com a argila. Segundo Graciella, esse movimento favorece o surgimento de memórias que posteriormente são incorporadas às produções artísticas. “A diversidade de memórias que surge a partir da sensibilização, um dos pilares da nossa metodologia, exige um exercício de consciência de si. É interessante observar esse processo de revisitar memórias por meio da argila e transformá-las em uma obra de arte.”

Essa prática de escuta e troca de experiências inspirou o próprio conceito de “Confluências”. De acordo com Bianca, o projeto dialoga diretamente com o pensamento de Nego Bispo sobre o encontro entre rios como metáfora para os encontros humanos. “A ideia da confluência conversa muito com o rio. Quando um rio encontra outro, ele continua sendo ele mesmo, mas passa a carregar muitas outras águas. Foi essa imagem que nos inspirou”, explicou.
A relação com os rios também orienta a escolha dos espaços que recebem as oficinas. Os encontros acontecem em locais conectados, de diferentes formas, a corpos d’água presentes na cidade. Durante as atividades, os participantes são convidados a refletir sobre os territórios que habitam, as memórias que carregam e as águas que atravessam suas trajetórias.
Ao final de cada oficina, os participantes produzem recipientes em argila que funcionam como representações simbólicas dessas experiências. Parte das peças será incorporada a uma instalação artística coletiva prevista para outubro de 2026, na Casa do Lago. A proposta é reunir os trabalhos produzidos ao longo do projeto em uma composição inspirada no percurso de um rio. “Nossa ideia é que as peças formem um rio dentro da exposição. Queremos que os participantes possam chegar à Casa do Lago e reconhecer ali o seu recipiente ocupando aquele espaço junto aos recipientes de tantas outras pessoas”, concluiu Luís Guilherme.
As inscrições devem ser feitas através do link.