Texto: Ana Ornelas | Fotos: José Irani
“Não existe, de fato, um combate à violência contra a mulher sem mudanças estruturais que garantam autonomia econômica, geração de renda e dignidade.” A afirmação foi feita por Tassiana Moreira, da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP) da Unicamp, projeto de extensão da Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC), durante atividade realizada no acampamento Marielle Vive, em Valinhos (SP), que recebeu, na última semana, a Ministra das Mulheres, Márcia Lopes, e o Ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira.
A atividade integrou a jornada de lutas das mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ao longo do mês de março e reuniu moradoras do acampamento, instituições parceiras e representantes do poder público em um momento considerado decisivo para o futuro da área. O encontro também evidenciou como iniciativas voltadas à geração de renda e à organização coletiva podem contribuir para o enfrentamento da violência de gênero.
A violência de gênero permanece entre os principais desafios sociais do país. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil registrou mais de 1500 vítimas de feminicídio em 2025, o maior número até então. O levantamento também aponta que a maior parte desses crimes ocorreu dentro da residência da vítima e foi cometida por companheiros ou ex-companheiros. Nesse contexto, iniciativas voltadas à autonomia econômica ganham relevância por aumentarem as possibilidades de mulheres romperem ciclos de violência. Em boletim especial de Dia Internacional das Mulheres publicado em março de 2026, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) destaca que a independência financeira é um elemento central para o rompimento desses ciclos.

Durante a visita, a ministra Márcia Lopes destacou o papel das famílias acampadas na produção de alimentos e na segurança alimentar. “Ocupar a terra, produzir na terra e contribuir para a segurança alimentar e nutricional das pessoas da cidade é fundamental. As mulheres são maioria na agricultura familiar, se organizam, produzem e aprimoram tecnologias”, afirmou.
A ministra também ressaltou a importância da articulação com universidades públicas, como a Unicamp. “A universidade teve um papel importante nos estudos, nas pesquisas e na divulgação desse trabalho. Nós não podemos dissociar campo e cidade”, disse.
É nesse cenário que a ITCP desenvolve, junto ao coletivo “As Marielles”, ações voltadas à geração de renda e ao fortalecimento da organização das mulheres. “A ITCP acompanhou esse coletivo contribuindo com o fortalecimento da organização e da comercialização dos produtos. Foram alimentos produzidos nos quintais e nas áreas coletivas, além de artesanato e produtos fitoterápicos. Essas mulheres já participaram de feiras e também de atividades dentro da universidade”, explicou Tassiana.
A coordenadora da ITCP, Stella Zagatto Paterniani, destaca que a atuação no acampamento Marielle Vive é recente e surgiu a partir do contato com o coletivo durante uma formação de mulheres do MST na região de Campinas. “Foi nesse espaço que a equipe conheceu o coletivo ‘As Marielles’, formado por mulheres do acampamento, e passou a construir o trabalho em conjunto. A ITCP já tinha uma trajetória com o MST em outros territórios, e esse vínculo possibilitou essa aproximação”, explicou.
Segundo Stella, a atuação da incubadora parte das demandas apresentadas pelas próprias mulheres do território e busca fortalecer processos coletivos de geração de renda e organização social. A metodologia, baseada na educação popular, reconhece os conhecimentos produzidos pelas participantes e constrói soluções de forma conjunta. “A gente não chega com um projeto pronto. A atuação parte do diálogo com o território, reconhecendo que as pessoas já produzem conhecimento e têm suas próprias demandas. A partir dessa escuta, construímos ações conjuntas, como o apoio à comercialização e à realização de feiras artesanais”, afirmou.
Segundo Tassiana, o acampamento esteve inserido em um contexto de disputa territorial, mas também de construção de alternativas. “A gente teve uma perspectiva, junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), de conseguir a desapropriação de áreas para criar o assentamento Marielle Vive, que pode ser um modelo de agroecologia e de produção de alimentos saudáveis”, afirmou.

Moradora do acampamento há oito anos, Márcia Regina Rodrigues integrou o coletivo e participou da atividade com a ministra. Para ela, a visita representou reconhecimento da realidade vivida pelas mulheres no território. “Foi muito importante ela vir até aqui. Hoje está tendo muita violência contra as mulheres. Eu apresentei uma situação baseada na minha própria vivência para mostrar o que acontece. Parece um extermínio de mulheres. A gente precisa que a justiça tome atitude”, afirmou.
O relato da moradora evidencia como a violência de gênero ultrapassa os números e se manifesta na rotina de mulheres que, muitas vezes, encontram na geração de renda possibilidades concretas para reconstruir suas trajetórias e fortalecer sua autonomia. Além da produção de alimentos, o coletivo desenvolveu itens como sabonetes, pomadas, roupas e outros produtos, que contribuíram para a geração de renda e para a autonomia das mulheres do acampamento.
Para Tassiana, essas iniciativas estiveram diretamente ligadas ao enfrentamento da violência de gênero. “A luta contra o feminicídio e contra a violência passou pela reforma agrária, pela garantia de condições materiais de existência e pela possibilidade de emancipação dessas mulheres”, contou.