“Mulher em Luta – Mulher em Guerra” volta a Campinas após dez anos de sua criação na Unicamp

Texto: Ana Ornelas | Fotos: Divulgação

Dez anos depois de nascer nos corredores do Instituto de Artes (IA) da Unicamp, o espetáculo “Mulher em Luta – Mulher em Guerra” retorna a Campinas trazendo ao palco as memórias, dores e resistências das mulheres colombianas afetadas pelo conflito social, político e armado do país. Criada pela atriz e pesquisadora colombiana Oriana del Mar, a obra transforma testemunhos reais em linguagem poética e reafirma o protagonismo feminino na construção da paz. O espetáculo integra a agenda do 19° Feverestival e será apresentado nos dias 30/06 e 01/07, às 20h, no CIS-Guanabara, espaço da Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC). Os ingressos são gratuitos e devem ser retirados no local com uma hora de antecedência.

Egressa do mestrado em Artes, Oriana expressa a emoção de voltar ao local onde o espetáculo nasceu. “Durante minha pesquisa sobre a construção da imagem poética no teatro performativo, surgiu esse interesse, como mulher, artista e colombiana, de tratar uma temática que sempre foi muito forte e impactante para mim. Eu me perguntava como poderia contribuir, a partir do meu manifesto artístico, para visibilizar os impactos da guerra nos corpos das mulheres. Foi assim que a peça nasceu. Agora, dez anos depois, voltamos para casa”, contou.

Na narrativa do solo, o público é levado em uma viagem profunda pela história do conflito social, político e armado da Colômbia, visto através dos olhos de quem mais o sentiu: as mulheres. Por meio de personagens como Consuelo Velásquez e Jennifer Restrepo, inspiradas em depoimentos reais de vítimas, a atriz dá voz a realidades que merecem ser ouvidas. “Não existe uma única história por trás de cada personagem. Cada relato trazia fragmentos da memória da dor, aquilo que permanecia mais vivo no coração de cada mulher. A partir desses fragmentos, fui criando uma dramaturgia. Em Jennifer e Consuelo estão reunidas as vozes de muitas mulheres que foram vítimas do conflito social, político e armado da Colômbia”, explicou Oriana.

Entre os impactos abordados pela obra, a violência sexual ocupa um lugar central. “A violência sexual é talvez o impacto mais brutal porque não conhece classe social, idade ou território. Ela atravessa todas as mulheres. Os corpos femininos são tratados como botim de guerra, como propriedade a ser conquistada e violada. Isso acontecia nas zonas rurais, mas também nas cidades, durante protestos e manifestações. É uma violência profundamente cruel, que continua existindo e que precisa ser compreendida não apenas como um crime individual, mas como parte da lógica do conflito colombiano”, afirmou a artista. 

Criada pela atriz e pesquisadora colombiana Oriana del Mar, a obra transforma testemunhos reais em linguagem poética e reafirma o protagonismo feminino na construção da paz.

Apesar da brutalidade desses episódios, Oriana ressalta a importância de não retratar as mulheres apenas como vítimas da história. “As mulheres são resiliência, são construtoras da paz, são aquelas que transformaram a sociedade colombiana. Elas sofreram profundamente, mas transformaram essa dor em coragem e organização. Foram elas que criaram movimentos, coletivos e processos de busca por desaparecidos, de memória e de resistência. Inclusive, acredito que foi a força dessas mulheres que tornou possível que homens sentassem à mesa para construir o acordo de paz. Elas continuam lutando para que outras famílias não precisem viver as mesmas violências.” 

Apesar de retratar um conflito especificamente colombiano, Oriana destaca que a peça dialoga com experiências universais de dor, violência e resistência. “A morte, a dor e os desaparecimentos podem receber nomes diferentes em cada país, mas produzem marcas semelhantes. As pessoas se identificam desde esse sentir profundo, desde aquilo que é humano. Talvez não reconheçam exatamente a história da Colômbia, mas reconhecem as violências presentes em seus próprios territórios e experiências. É por isso que a peça atravessa fronteiras”, disse. 

Para Oriana, “Mulher em Luta – Mulher em Guerra” é, além de um espetáculo teatral, um trabalho de memória. “Vivemos tempos em que tudo acontece muito rápido e esquecemos rapidamente também. Mas a memória é fundamental para que não reproduzamos as mesmas violências, tanto na vida pessoal quanto na vida coletiva. Lembrar é uma forma de transformação. E, sobretudo, é importante que as pessoas saibam que essas mulheres, mesmo tendo sido vítimas da guerra, são as principais construtoras da paz na Colômbia”, concluiu.

Sobre o 19°Feverestival
O Festival Internacional de Teatro de Campinas – Feverestival é um dos maiores eventos teatrais do interior do estado de São Paulo, organizado desde 2003 de forma colaborativa por gestoras e gestores culturais. Com mais de 15 edições na cidade de Campinas/SP, o evento oferece uma ampla programação cultural, composta por apresentações teatrais, ações pedagógicas, debates, rodas de conversa e festas que possibilitam a integração entre público e artistas. Com o intuito de fortalecer a cena artística no interior do estado, o Feverestival hoje se insere no calendário nacional de festivais de teatro, evidenciando o grande potencial criativo e produtivo do setor cultural campineiro. 

A programação completa da 19° edição pode ser conferida no link.

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