Texto: Ana Ornelas | Fotos: Luana Navarro
Em uma apresentação no México, pratos começaram a voar em direção ao Palácio do Governo durante uma cena de La Scarpetta. No Ceará, um jegue fugiu durante a entrada do espetáculo e arrastou o ator estrada abaixo diante de uma praça lotada. Histórias como essas acompanham a trajetória do espetáculo há quase três décadas e ajudam a explicar por que La Scarpetta, do LUME Teatro, continua atual e em constante transformação. Nos dias 30 e 31 de maio, às 20h, o público poderá acompanhar essa experiência na sede do LUME Teatro, em Barão Geraldo, por meio do projeto Palco DCult, iniciativa da Diretoria de Cultura (DCult), vinculada à Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC).
Em cena, o palhaço Teotônio, uma espécie de artista “pau pra toda obra”, apresenta seu “Spettacolo Artistico” por meio de números de magia, equilibrismo, música, contorcionismo e acrobacias com ovos, conduzindo o público por situações em que o improviso, o fracasso e o caos se transformam em comicidade. Dirigido pelo italiano Nani Colombaioni, importante nome da comicidade italiana e colaborador de Federico Fellini, o espetáculo estreou oficialmente em 1997 e, desde então, percorreu teatros, ruas, praças e picadeiros de circo em diferentes países.
Para o ator Ricardo Puccetti, a permanência de La Scarpetta ao longo de tantos anos está diretamente ligada à maneira como o LUME compreende a arte da palhaçaria. Segundo ele, o espetáculo nunca foi pensado como uma obra fechada, rígida ou definitiva, mas como uma consequência da própria existência do palhaço em cena. “A visão que a gente tem da palhaçaria é que o palhaço é uma obra em si. Os espetáculos são consequências desse palhaço. O meu palhaço começou lá atrás e continua vivo, trabalhando, improvisando, vivendo outras coisas. Então o espetáculo nunca fica congelado. Ele continua respirando”, explicou.

A relação de Ricardo com a linguagem do palhaço começou ainda antes de sua entrada no LUME. Sem acesso a escolas de teatro na época, ele passou a experimentar a figura do palhaço nas ruas de Campinas, improvisando situações e encontros cotidianos. Segundo o ator, essa experiência ajudou a construir a forma como ele entende o jogo cômico até hoje. “Eu saía vestido de palhaço sem saber exatamente o que fazer. Ia andando pela cidade, encontrando as pessoas, improvisando situações. Era uma tentativa de olhar para o mundo de outro jeito”, relembrou.
Já dentro do LUME, o ator participou das primeiras pesquisas desenvolvidas pelo diretor e pesquisador Luiz Otávio Burnier em torno da arte da atuação e da palhaçaria. De acordo com ele, o trabalho realizado pelo grupo buscava investigar aquilo que existia de mais singular em cada artista da cena, entendendo o palhaço não apenas como um personagem, mas como uma ampliação das fragilidades, inadequações e ridículos humanos. “O palhaço trabalha com o erro, com o fracasso, com a inadequação. E isso é muito humano. A humanidade do palhaço aparece justamente porque ele revela a imperfeição”, afirmou.
Foi durante uma viagem à Itália, na década de 1990, que nasceu a parceria com Nani Colombaioni, artista pertencente a uma tradicional família italiana dedicada à comicidade há gerações. O encontro marcou profundamente a criação de La Scarpetta, que passou a incorporar elementos da tradição cômica italiana ao trabalho físico e à pesquisa corporal desenvolvida pelo LUME. “O trabalho do palhaço acontece no encontro com o público. O palhaço não trata o público como uma massa. Ele olha no olho das pessoas, vai pescando uma reação aqui, outra ali. O espetáculo acontece nesta troca”, comentou Ricardo.

Essa dinâmica faz com que cada apresentação de La Scarpetta passe por situações inesperadas. Em uma apresentação no México, por exemplo, uma cena em que o público era convidado a quebrar pratos acabou adquirindo um tom político inesperado quando parte da plateia começou a arremessar os objetos contra a porta do Palácio do Governo. “As pessoas começaram a jogar os pratos na porta do palácio. Virou quase uma manifestação. E eu pensando: ‘Meu Deus, vão me prender aqui’”, contou o ator, aos risos.
Em outra ocasião, no interior do Ceará, a tentativa de realizar uma entrada montado em um jegue terminou com o animal fugindo no meio da praça lotada. “O jegue simplesmente resolveu ir embora. A cidade inteira ficou olhando eu sendo carregado estrada abaixo. Eu precisei me jogar no chão. Foi uma entrada maravilhosa justamente porque deu errado”, lembrou. Para ele, são justamente essas situações imprevisíveis que revelam a potência da palhaçaria. Após quase 30 anos de circulação internacional, La Scarpetta segue reafirmando a força da relação direta entre artista e público.
As apresentações são gratuitas e os ingressos devem ser retirados pelo Sympla, com uma hora antecedente do espetáculo.