Texto: Ana Ornelas | Fotos: Divulgação
O que significa construir um lar quando se vive uma experiência de deslocamento? A pergunta orienta a exposição “Casa-território ≡ Território-casa”, que reúne obras de artistas imigrantes e brasileiros para refletir sobre morada, pertencimento e memória a partir das múltiplas experiências de quem precisou reconstruir a própria vida em outros lugares. A mostra coletiva será inaugurada no dia 2 de julho, às 18h, no Centro Universitário MariAntonia, da Universidade de São Paulo (USP), e reúne trabalhos de dez artistas.
Coordenada pela pesquisadora Ana Carolina de Moura Delfim Maciel, professora do Instituto de Artes (IA) e presidente da Cátedra Sérgio Vieira de Mello Unicamp/ACNUR, e por João Felipe R. Ferreira, que também assina a curadoria-geral da exposição, a iniciativa foi contemplada pelo Edital PEX 2024 da Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC) da Unicamp. A exposição resulta do projeto Rede ArteRefúgio, criado em 2024 pelo grupo de pesquisa CineRe – Trajetórias sem Fronteiras e pela Cátedra Sérgio Vieira de Mello que tem como objetivo o desenvolvimento e a difusão de expressões artísticas no contexto dos deslocamentos humanos.

Segundo Ana Carolina, a ideia do projeto é facilitar a circulação e a visibilidade da produção dessas obras. “Lançamos um edital aberto tanto para artistas deslocados vivendo no país quanto para artistas brasileiros que tenham sido impactados por experiências de deslocamento ou que trabalhem essa temática em suas produções. A partir daí, construímos um processo de acompanhamento e formação que culmina agora nesta mostra”, explicou.
Essa proposta também orientou a construção curatorial da exposição. De acordo com João Felipe, o processo foi desenvolvido ao longo de mais de um ano e envolveu oficinas, debates e atividades formativas com os artistas participantes, além da colaboração de pesquisadores e estudantes da Unicamp. “Geralmente, a curadoria é um processo mais curto: alguém senta, escolhe as obras, conversa com os artistas e monta a exposição. O que tentei fazer nesse projeto foi tornar esse processo mais longo e incorporar as visões e os feedbacks das diferentes pessoas que participaram da equipe curatorial”, explicou.
O recorte curatorial parte da experiência do habitar e da construção de pertencimentos em contextos de mobilidade humana. A mostra reúne pinturas, fotografias, colagens, vídeos, objetos escultóricos e instalações. “Estamos trabalhando com a ideia de morada, da construção de um lugar a partir das perspectivas de deslocamento. Esse é o tema que orienta a seleção das obras. É um conjunto diverso de linguagens, mas unido por uma reflexão comum sobre o que significa construir um lar quando se vive uma experiência de deslocamento”, afirmou o curador.

Selecionados por meio de edital, os dez artistas participantes são oriundos de diferentes regiões do país e incluem representantes da Colômbia, Venezuela, Rússia, Angola, Cuba e El Salvador, além de brasileiros.
Um dos princípios do projeto é permitir que os artistas expressem seus próprios olhares sobre a experiência do deslocamento. “O que está no nosso interesse comum é retirar essas pessoas de uma perspectiva de vitimização, que muitas vezes não contribui para a compreensão da questão. Queremos que elas se expressem artisticamente sobre suas experiências e que um público mais amplo, fora da universidade, possa se aproximar da complexidade dos deslocamentos forçados contemporâneos. Trata-se de uma ação de extensão que busca ampliar o debate e promover encontros por meio da arte”, concluiu Ana Carolina.
A exposição segue aberta até 20 de setembro, com visitação gratuita de terça a domingo, das 10h às 18h.