Texto: Ana Ornelas | Fotos: Dário Crispim
As arquibancadas lotadas do Teatro de Arena da Unicamp evidenciaram, na noite de 2 de março, mais uma vez a transcendência da obra de Milton Nascimento, que não é apenas ouvida, mas vivida coletivamente. No concerto “Milton, Coração do Brasil”, a barreira entre palco e plateia dissolveu-se quando vozes de todas as idades se uniram à Orquestra Sinfônica da Unicamp (OSU), aos alunos de Canto Popular e à banda composta por docentes e estudantes do Departamento de Música do Instituto de Artes (IA). O espetáculo reafirmou o misticismo do “Bituca”, que segue fazendo história e atravessa gerações, despertando um reconhecimento íntimo e imediato em cada espectador.
Promovido pela Diretoria de Cultura (DCult), da Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC), o espetáculo apresentou um repertório composto por canções criadas nas décadas de 1970 e 1980, período marcado pela ditadura militar no Brasil e, como a própria obra de Milton lembra, “o que foi feito é preciso conhecer”. Entre as músicas interpretadas estavam “Notícias do Brasil (Os Pássaros Trazem)”, “Certas Canções”, “Fé Cega, Faca Amolada” e “Ponta de Areia”, que ganharam novos arranjos para orquestra e vozes.

Antes do concerto, o reitor da Unicamp, Paulo César Montagner, cumprimentou o público e destacou a importância de a Universidade manter seus espaços culturais abertos à sociedade. Ele lembrou ainda que Milton Nascimento recebeu, em 2025, o título de Doutor Honoris Causa da Unicamp. “É um prazer imenso ver nosso teatro cheio, com pessoas da universidade e da comunidade do entorno. A universidade se sente cada vez mais honrada em receber a comunidade externa para dialogar cada vez melhor com todas as pessoas”, afirmou.
Na sequência, a pró-reitora da ProEEC, Sylvia Furegatti, contextualizou o concerto no cenário das comemorações pelos 60 anos da universidade e destacou o papel histórico do Teatro de Arena como espaço de encontro entre arte, cultura e sociedade. “Encontrar esse espaço tomado por pessoas de diferentes idades, perspectivas e interesses mostra a força da arte como linguagem de diálogo”, afirmou.

À frente da apresentação esteve a maestra Cinthia Alireti, responsável pela direção artística e regência do concerto, que integrou a programação do projeto Palco DCult. Segundo ela, a proposta do espetáculo também teve um caráter formativo. “É um concerto feito em conjunto. Todos os arranjos foram produzidos pelos alunos e os cantores são estudantes do Instituto de Artes. É um projeto completamente sustentável, que a gente pretende repetir nos próximos anos.”
Nos momentos finais do concerto, público e artistas compartilhavam a mesma energia no Teatro de Arena, selada por Regina Machado, professora do IA, cantando a cappella trecho de “Canção de Amor”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, “Eu só sei que há momentos que se casam com canção. De fazer tal casamento, vive a nossa profissão. Nosso trabalho só se completa aqui com vocês”, concluiu.

Sobre a OSU
Criada em 1982, a Orquestra Sinfônica da Unicamp desenvolve projetos artísticos e educativos voltados à formação de público e à ampliação do acesso à música de concerto. As apresentações do concerto “Milton, Coração do Brasil”, realizadas em Campinas e Piracicaba, a última no Teatro Dr. Losso Netto, integraram a programação comemorativa pelos 60 anos da universidade.