Catto e Assucena celebram cotas trans na Unicamp e Orgulho LGBTQIA+ em show

As cantoras foram aplaudidas de pé no Centro de Convivência Cultural e apresentaram excelência musical e glamour

Texto: Davi Farinelli sob supervisão de Gabriela Villen | Fotos: Firmino Piton – Prefeitura de Campinas

O último domingo, 14 de junho, foi de celebração no Centro de Convivência Cultural de Campinas. Em um show gratuito, Catto e Assucena, duas das vozes mais singulares da música contemporânea brasileira, celebraram o Mês do Orgulho LGBTQIA+ e os 60 anos da Unicamp. A apresentação também marcou uma conquista recente e histórica da universidade: a implementação das cotas para pessoas trans no vestibular. “Que coisa boa poder celebrar um passo tão importante para a cidadania do nosso país”, afirmou Catto durante a apresentação. “Cota não é esmola, é conquista, reparação histórica”, completou Assucena.

Com carreiras consolidadas ao longo de mais de uma década, Catto e Assucena levaram ao palco suas trajetórias artísticas. Catto, que recentemente arrebatou público e crítica com sua turnê em homenagem a Gal Costa e se destacou na Rolling Stone Brasil com o álbum Caminhos Selvagens, dividiu a cena com Assucena, dona de duas indicações ao Grammy Latino com o trio As Baías e do álbum Lusco-Fusco. No espetáculo, canções autorais das cantoras se encontraram com clássicos das “divas” da MPB, em uma apresentação que arrancou aplausos de pé do público mais de uma vez.

Promovido pela Diretoria de Cultura da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura da Unicamp em parceria com a Prefeitura de Campinas e o Estado de São Paulo, o evento, materializou-se, nas palavras das cantoras, como um espaço para celebrar também as “bruxonas”. O mestrando Rafael Damico, que assistiu o show completa: “Ter um show desse aqui na cidade é muito lindo e bonito, são dois exemplos de desobediência!”. O show contou ainda com a abertura da cantora Wrany.

O show se apresenta como uma celebração das mulheres e reúne vozes marcantes da música brasileira, além de canções autorais de vocês. Como nasceu a ideia desse repertório?

Catto: Vou ser bem sincera, a gente escolheu as músicas que a gente adora, das cantoras que amamos e colocamos as nossas composições também.

E o que vocês gostariam de contar com esse show?

Catto: O nosso trabalho é emocionar e também contar a nossa história. A minha história e a de Assucena têm muitos encontros. A gente tem muitas intersecções, por vários motivos. Musicalmente, viemos de uma família de poetisas, cantoras, mulheres rebeldes, “bruxonas”, que estão aí no repertório – como Maria Bethânia, Marina Lima, Ana Carolina, Rita Lee e Gal Costa, que é nossa grande Mamacita e temos composições nossas, temos muito o que dizer também.

Assucena: Eu considero esse show realmente uma celebração. É um show que a gente começa na noite, numa madrugada, numa casa de shows em São Paulo que a gente chamou de “Uma noite com Catto e Assucena”. Então, é uma noite de celebração e um show para celebrar a música brasileira, a música das nossas mulheres.

Este show acontece em um momento simbólico para a Unicamp, que celebra seus 60 anos e também marca a implementação das cotas para pessoas trans. O que significa para vocês celebrar essa conquista da Unicamp através da arte de vocês?

Assucena: É essencial, fundamental. Quando falamos de cotas sejam sociais, raciais ou para pessoas LGBTQIAPN+, especialmente para pessoas trans — estamos falando de dignidade. Falamos de pessoas que muitas vezes são expulsas de casa muito cedo e que às vezes o único espaço de sobrevivência é a rua, a prostituição. E, de repente, existe a universidade como possibilidade de transformação.

Eu sei disso porque sou uma mulher trans da universidade. Ela salvou a minha vida. Sou uma pessoa antes dela e outra depois, com acesso a um arcabouço bibliográfico, conceitual, repertórios e à compreensão da importância das políticas públicas. Por isso, é importante dizer: cota não é generosidade, é política pública. Quem entra por meio dela acessa um direito conquistado historicamente.

Catto: Gente, que coisa maravilhosa! Eu acho que é uma conquista sem tamanho poder ter as cotas trans na Unicamp, que é uma das universidades mais importantes do país. Espero que isso seja implementado em outras instituições de educação. Para mim, é irrefutável que se trata de uma política educacional vitoriosa.

Assucena: Parabéns à Unicamp. Parabéns às mulheres trans, às pessoas trans e aos homens trans que conseguiram implementar.

Catto: E às pessoas não-binárias também. Elas existem! (risos) Eu sou não-binária!

O espetáculo teve abertura da cantora Wrany, acompanhada pelo guitarrista Matheus Dutra. Ex-estudante da Unicamp, ela contou à reportagem que se sentiu honrada por poder celebrar as cotas trans na sua apresentação e destaca: “Futuramente, a gente vai ver uma mudança muito importante na sociedade brasileira a partir disso. Ver que agora terão cada vez mais pessoas trans sendo acolhidas e sendo catapultadas para outras vidas, tendo lugares de fala, ocupando lugares importantes me deixa muito feliz e me dá bastante esperança”.

Como foi para você abrir a apresentação de Catto e Assucena?

Wrany: Eu fiquei muito nervosa de início, mas ao mesmo tempo foi muito natural. A Catto e Assucena são duas grandes referências para mim desde sempre. E também acredito que a gente tem referências parecidas, temos um universo que se conversa. Nesse sentido, foi muito natural construir esse repertório. Foi muito legal, muito gostoso, muita emoção! Estou realizada.

No Instagram da ProEEC (@proeec.unicamp), você pode assistir a um trecho da entrevista com as cantoras Catto e Assucena em vídeo, acompanhado por imagens do show.

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